O problema de culpar os outros começa quando deixamos de olhar para nós mesmos
Em A Vontade de Muitos, James Islington apresenta uma sociedade marcada pela desigualdade e pela disputa por poder. Entre as ideias que atravessam a história, uma contradição humana se destaca: somos rápidos em reconhecer os erros dos outros, mas nem sempre estamos dispostos a examinar os nossos.
É mais fácil identificar os defeitos do mundo do que olharmos para nós mesmos. A injustiça parece evidente quando somos suas vítimas, e os erros dos outros quase sempre parecem maiores que os nossos. Existe uma conveniência nessa maneira de enxergar as coisas... podemos exigir mudanças sem precisar começar por nós mesmos.
Em A Vontade de Muitos, James Islington constrói uma sociedade na qual o poder de poucos depende da submissão de muitos. Nesse contexto, uma passagem oferece uma imagem que ultrapassa a política e encontra aplicações na vida cotidiana.
“A força de uma pirâmide está em suas fundações, e não em seu topo.”
Uma estrutura não se sustenta pela importância que atribui a si mesma, mas pela qualidade daquilo sobre o qual foi construída. Isso vale para instituições, empresas e relações humanas. O topo pode concentrar prestígio e autoridade, mas nada disso garante estabilidade quando as fundações estão comprometidas.
Ainda assim, queremos resultados sem processos sólidos, reconhecimento sem trabalho consistente e autoridade sem conquistar confiança. Tentamos alcançar o topo antes de compreender o que o sustenta.
Isso não significa que todos tenham a mesma responsabilidade por uma estrutura injusta. Significa apenas que reconhecer os erros do sistema não nos dispensa de examinar nossas próprias escolhas.
O DESCONFORTO DE CRESCER
Talvez evitemos esse exame porque reconhecer um erro ameaça a imagem que construímos de nós mesmos. É mais confortável atribuir um fracasso às circunstâncias ou responsabilizar outra pessoa por aquilo que não saiu como esperávamos.
Às vezes, essas explicações são verdadeiras. O problema começa quando se tornam as únicas explicações que aceitamos.
Outra passagem aborda o desconforto que acompanha os desafios reais:
“O homem que nunca fica nervoso nunca faz nada difícil. O homem que nunca fica nervoso nunca cresce.”
Decisões importantes, conversas necessárias e novas responsabilidades podem provocar insegurança. Não temos garantia de êxito, e nossas capacidades são colocadas à prova.
O desconforto nem sempre é sinal de que devemos recuar. Às vezes, indica apenas que estamos diante de algo para o qual ainda não nos sentimos preparados.
Isso não significa que insistir seja sempre uma virtude. Há momentos em que recuar é prudente. A questão é distinguir o medo que nos alerta para um risco real daquele que apenas nos protege de enfrentar uma dificuldade necessária.
A maturidade não consiste em nunca sentir insegurança, mas em aprender a agir com discernimento apesar dela.
CONHECIMENTO NÃO É O MESMO QUE SABEDORIA
Conhecer amplia nossa compreensão da realidade. Entretanto, podemos aprender para compreender melhor o mundo ou apenas para encontrar argumentos que confirmem nossas convicções.
“... eu segui em frente de qualquer maneira, porque conhecimento é sempre útil...”
Um gestor pode investigar por que um projeto fracassou ou procurar imediatamente um culpado. Um profissional pode examinar as próprias limitações ou interpretar qualquer crítica como perseguição. Os fatos podem ser os mesmos, mas a disposição para aprender muda tudo.
Quem deseja apenas confirmar o que já pensa transforma o conhecimento em instrumento de defesa. Quem deseja compreender precisa aceitar a possibilidade de rever suas conclusões.
O conhecimento é útil, mas não produz humildade automaticamente. Às vezes, apenas torna nossas justificativas mais sofisticadas.
QUANDO OS OUTROS SE TORNAM O PROBLEMA
A contradição aparece de maneira direta em outra passagem:
“Esse, porém, é o problema com as pessoas, não é? Elas sempre acham que os outros são o problema.”
É fácil aplicar essa observação aos outros. Pensamos em pessoas incapazes de admitir erros, em líderes que transferem responsabilidades e em indivíduos que encontram culpados para todas as suas frustrações. O julgamento parece correto até percebermos que ele também pode nos colocar convenientemente fora da crítica.
A dificuldade não está em identificar os erros alheios, mas em imaginar que essa capacidade nos torna imunes aos nossos.
Responsabilidade não significa aceitar injustiças em silêncio ou assumir culpas que não nos pertencem. Significa preservar a disposição de avaliar a própria conduta, mesmo quando existem fatores externos envolvidos.
Não controlamos todas as circunstâncias nem as decisões alheias. Ainda assim, respondemos pelo modo como agimos diante delas.
É fácil apontar os erros que sustentam o mundo dos outros. Difícil é reconhecer aqueles que continuamos sustentando no nosso.

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